segunda-feira, 27 de agosto de 2012

legalização da maconha pode ajudar a salvar economia americana

O jornalista americano Doug Fine não está chapado, apesar do nome de seu terceiro livro investigativo, "Too High to Fail -- Cannabis and the New Green Economic Revolution" (ed. Penguim/Gotham; numa tradução livre, "Muito Chapado para Fracassar -- Cannabis e a Nova Revolução Econômica Verde).

Ele acredita que a legalização da maconha possa ajudar a salvar a economia dos EUA e, para provar sua tese, passou um ano numa comunidade rural que tem, na droga, 80% de sua economia, ou US$ 8 bilhões por ano.

Autoridades locais apoiam e protegem os plantadores com um programa de licença inédito, que cobra pelo registro de até 99 plantas.

Esse lugar, acreditem, fica no próprio EUA, ao norte da Califórnia, no condado de Mendocino, onde Fine acompanha o ciclo de uma plantação, da semente geneticamente modificada à droga final nas mãos dos pacientes.

O livro é lançado no momento em que três Estados americanos se preparam para votar, nas eleições de novembro, pela legalização do uso recreativo para adultos.

Ao mesmo tempo, o governo federal continua a considerá-la uma droga ilegal, sem valor medicinal e altamente viciadora, liderando uma guerra contra os 17 Estados que liberaram a planta para fins médicos.

Segundo um professor de economia de Harvard, entrevistado no livro, a droga poderia ter rendido aos cofres do governo US$ 6,2 bilhões em impostos em 2011 e, após sua legalização, esse número poderia subir para US$ 47 bilhões. Leia entrevista.

*

Folha - O que há de tão especial em Mendocino que fez ser possível essa relação quase utópica com maconha?
Doug Fine - O clima ajuda. É um condado que vive de agricultura, com um clima mediterrâneo, tem uvas por todos os lados. Mas é também um lugar bem progressista. Foi o primeiro condado dos EUA a banir o uso de transgênicos por voto popular.
São três gerações que vivem da planta. Não carrega o estigma de puritanismo da guerra às drogas que outros lugares têm.
Como a cannabis se desenvolveu para crescer em quase qualquer tipo de clima, diria que o mais importante é a cultura local. O homem tem evoluído com a planta, ela foi encontrada em tumbas com milhares de anos e é citada num manual médico chinês de 3.000 anos.

No fim do livro, agentes federais fazem uma série de apreensões e prendem um dos produtores mais legítimos, de acordo com o xerife local. Ainda assim, você acha que o fim da guerra à maconha está próximo. Por quê?
Acho que a guerra está ganha. A popularidade é crescente nas pesquisas, 56% dos americanos querem a regulamentação da cannabis. Não é mais questão de conservadores contra progressistas porque até mesmo americanos religiosos defendem o fim da guerra às drogas por estar aprisionando gente demais.
Os EUA têm a maior população carcerária do mundo. Sabe, você pode perder batalhas perto do fim e ainda assim ganhar a guerra. É difícil prever quando. Pode ser daqui a dois anos ou 20 anos. Tenho esperança de que algo aconteça no segundo mandato de Obama.

Mas o governo atual tem sido mais agressivo que o de George W. Bush na repressão contra a maconha medicinal. Por que ele mudaria?
Realmente a comunidade está furiosa com Obama.
Acredito que ele resolveu ignorar o caso no primeiro mandato, mas, quando era senador, afirmou que a guerra às drogas não funciona.
Ele sabe disso. Acredito que num possível segundo mandato ele vá tentar alguma manobra, como tirar a cannabis do Anexo 1 para o Anexo 2 da lei federal de substâncias controladas. Até cocaína e metanfetamina estão no Anexo 2 [substâncias que podem causar dependência e tem valor medicinal].
Até mesmo um juiz administrativo da DEA [agência federal antidrogas] afirmou em 1988 que é um absurdo a cannabis estar no Anexo 1 [substâncias altamente viciadoras e sem valor medicinal].

Dizer que a legalização salvaria a economia dos EUA parece exagero, e o nome do livro não ajuda na seriedade. Como tem sido a reação ao livro?
Não tenho recebido olhares esquisitos. Estive em Nova York para uma palestra para divulgar o livro e a média de idade do público era 70, 80 anos. Todo mundo entendeu que a guerra precisa acabar.
Maconha é a plantação número um dos EUA. Vivo num Estado conservador, no interior, com caubóis, e lá eles entendem também.

De onde vem essa conta de que maconha é a maior plantação dos EUA?
Há de US$ 6 bilhões a 8 bilhões sendo gerados só no pequeno condado de Mendocino por ano e te conto de onde tirei isso.
Em 2010, autoridades locais apreenderam 600 mil plantas que estimaram ser 10% da colheita total do condado [legal e ilegal]. Os produtores dizem que nem pensar, que deve ser apenas 1%.
Mas, se forem 10% mesmo, são 6 milhões de plantas que chegam ao mercado.
Se você considerar, por baixo, que cada planta dá uma libra de produto e que o preço mais baixo dado em anos recentes é US$ 1.000 por libra, você tem US$ 6 bilhões apenas em Mendocino, onde a receita das vinícolas é US$ 74 milhões.

Seu livro explica que é preciso "seguir o dinheiro" para entender como a legalização poderia salvar a economia, principalmente na produção industrial para comércio têxtil, de alimentos e energia. Acha que os ativistas deveriam mudar suas estratégias, já que estão mais focados na questão médica?
Cannabis industrial tem mais potencial economicamente do que seu uso medicinal ou social, e realmente poderia ser um elemento mais forte nas campanhas. É um absurdo que os Estados Unidos não estejam nesse mercado. A indústria de cannabis cresce 20% por ano no Canadá.
Eu e minha família usamos para um monte de coisas. Minha mulher faz roupa e usamos óleo da semente em nossos sucos no café da manhã todos os dias. Compramos os produtos nos EUA, mas é tudo importado, do Canadá.
Um condado da Califórnia votou e aprovou a legalização de produção industrial em 2011, mas o governador vetou por causa das leis federais.

Há 17 Estados que legalizaram maconha medicinal, mas as leis mudam em cada um. Em Los Angeles, autoridades reclamam que as lojas se multiplicam sem controle. O que dá para aprender com experiências ruins?
Sim, há uma proliferação, mas isso é demanda de mercado, as pessoas querem essa planta. A proibição é a causa dos problemas.
Reconheço que posso soar como uma líder de torcida, mas sou um jornalista sério. Claro, poderiam fazer regulamentações melhores, mas já temos sistemas que funcionam para álcool e vinícolas.
Acredito num modelo em que a cannabis fosse regulamentada para uso de adultos, como o álcool. E um sistema no qual o pequeno agricultor pudesse continuar a produzir, como acontecem com as cervejarias artesanais, sem ser engolido por gigantes.

Qual é a sua relação com maconha?
Sim, eu já usei a planta, acho que é um algo bom como aspirina, como álcool e que, como qualquer outra droga farmacêutica, não pode ser abusada.
Sou uma pessoa sóbria, sou pai. E sou também espiritualizado. Está no Gênesis, livro 1, capítulo 1, versículo 29: Deus nos deu todas as plantas e sementes para nosso uso, e não com exceção de alguma com a qual Richard Nixon teve problema.

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domingo, 26 de agosto de 2012

O diabo, o milionário e o santo

É impossível não enxergar nas três reportagens sobre religião da Record peças de um vale-tudo por fiéis

No intervalo de nove meses, o "Domingo Espetacular", da Record, exibiu três reportagens especiais de temática religiosa. Elas formam um conjunto de 130 minutos, mais do que um longa-metragem, e dizem muito sobre a confusão que reina numa emissora comercial comandada por líderes religiosos.

A primeira foi ao ar em 13 de novembro do ano passado. Por 39 minutos, o programa tratou de um fenômeno religioso, encontrado em diferentes práticas neopentecostais no Brasil, cuja característica mais notável é o desfalecimento de fiéis quando tocados por pastores.

Chamada de forma irônica de "cai-cai", a prática foi ridicularizada e demonizada em toda a reportagem. "O diabo usa o cair do espírito para cegar as pessoas", disse um homem apresentado como "fundador" da religião e que hoje a renega. "Isso não é Deus, é um esquema do diabo", alertou.

No dia 18 de março foi ao ar uma reportagem de 26 minutos sobre Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial, apresentado como "o apóstolo milionário".

"Durante mais de quatro meses, nossa equipe seguiu a trilha do dinheiro, que começa na doação dos fiéis e vai parar no bolso do novo criador de gado do Pantanal", disse o repórter Marcelo Rezende.

Ex-pastor da Igreja Universal, o religioso hoje é visto como um temido concorrente. "Para crescer rapidamente, Valdemiro ataca com violência a igreja à qual pertenceu, principalmente o bispo Edir Macedo", disse Rezende. "Hoje, esbanja uma vida de riqueza, com direito a aviões, helicópteros e carros de luxo."

Macedo, por sua vez, foi o foco da terceira grande reportagem. Exibida no dia 19 de agosto, alongou-se por 64 minutos, praticamente o tempo das outras duas somadas.

Janine Borba, apresentadora do programa, avisou: "Foram cinco meses de viagens ao redor do mundo para produzir a mais completa e impressionante reportagem já feita sobre um dos maiores movimentos cristãos da humanidade".

Diferentemente das acusações e ofensas ao "cai-cai" e a Valdemiro, este terceiro documentário só teve palavras elogiosas para Macedo, líder do "maior movimento de fé do Brasil".

Texto hiperbólico, trilha sonora típica e imagens fortes ajudaram a compor uma das mais impressionantes hagiografias já exibidas na televisão.

Houve, é verdade, breve menção à prisão de Macedo, em 1992, mas apenas com a intenção de reforçar o mito. "Ele foi absolvido de todas as acusações", disse o narrador, sem informar quais (a saber: "delitos de charlatanismo, estelionato e lesão à crendice popular").

A Record justifica as três "reportagens" sob o argumento do "interesse jornalístico". Nos dois primeiros casos, a emissora se valeu de denúncias públicas e investigações policiais ou judiciais. No terceiro caso, o "gancho" é a comemoração dos 35 anos da fundação da Universal, tema de um novo livro de Edir Macedo.

A duração e o tom das três matérias fazem pensar em algo diverso. O fato de Macedo ser, ao mesmo tempo, líder da Universal e proprietário da Record, sem dúvida, afeta o julgamento. É impossível não enxergar nos três trabalhos peças de um vale-tudo por fiéis, algo que deveria estar longe de ser o objetivo de uma emissora comercial no Brasil.

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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Artistas protestam dentro e fora da Rússia

Além de apoio internacional, classe artística local defende o Pussy Riots e promete manifestações em shows

Pavlénski costurou a boca em performance contra censura; cantora Peaches liderou um protesto em Berlim

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM MOSCOU

Além do crescente apoio de estrelas como Madonna, Sting, Beastie Boys e Faith No More, uma série de artistas russos tem feito barulho no país pela libertação das três garotas do coletivo feminista de punk rock Pussy Riots.

Os americanos do Antiflag regravaram "Virgem Maria, Mande Putin Embora!", trilha da performance que levou as garotas a julgamento.

Já os russos da banda eletro Bartó fizeram um remake de "Kisia Eres" (heresia de gato), outra canção do Pussy Riot, questionando o regime e a prisão das integrantes.

Gravado em julho deste ano, o tema marcou uma parceria da banda com os rappers do Trash Shapito Kach.

"Tudo é limitado na Rússia já há bastante tempo. Mas isso agora é totalmente inaceitável. Eles [a Igreja e o governo] estão se ferrando para essas meninas presas e julgadas", disse a vocalista do Bartó, Maria Liubitcheva. Há um clipe no YouTube (folha.com/no1137706)

"Se antes o presidente gozava de algum apoio, agora uma parte da população está repensando isso", completa.

Em junho passado, mais de uma centena de atores, cineastas, músicos e escritores assinaram uma carta aberta pedindo a liberdade das jovens.

Na mesma época, a diretora russa Olga Darfi chegou encapuzada ao tapete vermelho do Festival Internacional de Cinema de Moscou, em apoio ao coletivo.

Um dos signatários da carta, Dmítri "Sid" Spirin, vocalista da banda pop-punk Tarakani!, afirma que o julgamento é tão injusto que seria "desonesto" não apoiar a Pussy Riot.

O artista Piotr Pavlénski foi ainda mais radical: costurou a própria boca em protesto e, solitário, se postou na frente da Catedral de Kazan, em São Petersburgo. Para ele, a história do coletivo punk é o maior exemplo da deterioração da liberdade de expressão na Rússia.

"Alguns artistas aceitam essa censura e castram sua própria obra. Eu costurei minha boca para ressaltar o medo do artista diante da censura", disse Pavlénski.

NOVAS MORDAÇAS

O escândalo do Pussy Riots chamou a atenção do mundo para a aprovação de novas leis que podem restringir ainda mais as liberdades individuais na Rússia.

Uma delas, já promulgada em São Petersburgo, prevê penalidades para a "promoção do homossexualismo".

Sem especificar o termo "promoção", a lei é temida por artistas locais, que acreditam que a norma possa ser usada arbitrariamente para reprimir a produção de filmes, livros e arte em geral.

"[A lei] pode, claro, influenciar o trabalho dos profissionais da arte. Essa guerra contra os homossexuais também está relacionada ao ortodoxismo religioso radical que há aqui", explica o defensor dos direitos humanos Lev Ponomariov.

"É simplesmente risível que uma lei como esta seja aprovada no ano de 2012. Eu quero fazer um cover gay do Village People no meu próximo show em São Petesburgo e perguntar, ali do palco, se aquilo foi promoção de homossexualismo", reclama o vocalista do Tarakani!.(MARINA DARMAROS)

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Estado russo é totalitário contra arte, diz ativista

"Não é hora para os refinados, agora o artista deve sair às ruas." A frase é de Aleksei Plutzer-Sarno, 52, líder do Voiná, grupo de artistas de rua responsável por performances anárquicas como simular orgias em museus ou enforcamentos em supermercados. Leia entrevista com Sarno. (MD)

Folha - A censura sobre os artistas-ativistas piorou?
Aleksei Plutzer-Sarno - Sim, na Rússia todo mundo trabalha sob ameaça de prisão, espancamento pela polícia, prisão e morte. A censura é 100%.

Vocês apoiam o Pussy Riot? O que vocês acham do processo criminal contra elas?
Elas sem dúvida são presas políticas. A ação criminal contra elas é totalmente fabricada. Nós devemos ser solidários a elas. O governo tenta destruí-las moral e fisicamente. E, simultaneamente, assustar a todos os artistas de protesto restantes. Mas o Pussy Riot não cometeu nenhum crime. O governo enlouqueceu!

Em São Petersburgo agora existe uma lei contra a "propaganda gay". Você acha que isso pode limitar a arte?
A arte não pode ser limitada, ela simplesmente vai para o porão. Essas leis estão orientadas a destruir os direitos elementares do cidadão, aniquilando as liberdades para as mais diversas minorias, tanto intelectuais como nacionais e sexuais. É uma característica fundamental do totalitarismo.

Que outros instrumentos o Estado usa para limitar a arte?
Todos os meios padrão de um Estado totalitário burro: prisões, espancamentos, tortura, ameaças, interrogatórios, chantagens.
Os policiais quebraram a perna do ativista Filipp Kostenko, espancaram-no quase até a morte. Da nossa ativista Taissia Ossipova, interromperam o envio de medicamentos na prisão. Natália Sokol foi espancada por sete policiais na presença de seu advogado. Arrancaram os cabelos dela.
E algumas vezes eles simplesmente matam as pessoas na prisão, como fizeram com [com o advogado que descobriu um esquema de fraudes na restituição de imposto Serguêi] Magnítski.

Você acredita que a arte do Voiná e do Pussy Riot seria aceita em outros países?
Claro que seria. Arte sincera e forte é aceita em qualquer país, só que ela tem um estilo na Europa, outro na América. Os artistas devem considerar o contexto local, tradições e situação político-social. E temas críticos e de protesto existem em qualquer país.

O que fará o Voiná?
Mudamos as prioridades. As prisões estão cheias de presos políticos. O governo tornou-se totalitário. Estamos há um ano sob investigação federal. Iniciamos protestos de rua para atrair os meios de comunicação de massa. Quando a mídia acompanha o destino dos presos, eles têm chance de sair da prisão russa vivos. "Voiná vai ao resgate" é nosso novo slogan.

Leia íntegra da entrevista
folha.com/no1137674

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domingo, 5 de agosto de 2012

A Fidelidade

As pessoas realmente frívolas são as que só amam uma vez na vida. O
que elas chamam lealdade ou fidelidade, chamo eu letargia do hábito ou
falta de imaginação. A fidelidade representa na vida emocional o mesmo
que a coerência na vida do intelecto, apenas uma confissão de
impotência. A fidelidade! Tenho de a analisar um destes dias. Está
intimamente associada à paixão da propriedade. Há muitas coisas que
atiraríamos fora se não receássemos que outros as apanhassem.

Oscar Wilde, in 'O Retrato de Dorian Gray'

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Vidal de A a Z

R DE RELIGIÃO "O grande e indecente mal que está no cerne de nossa
cultura é o monoteísmo. Três religiões anti-humanas se desenvolveram a
partir de um texto bárbaro da idade do bronze conhecido como o Velho
Testamento: o judaísmo, o cristianismo e o islã. São religiões de um
deus celeste. São patriarcais, e é essa a razão do ódio às mulheres ao
longo de 2.000 anos nos países que sofrem influência do deus celeste e
de seus representantes terrenos do sexo masculino. [...] Em última
análise, o totalitarismo é o único tipo de política que pode atender
os objetivos do deus celeste."

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Produzido por americanos nos anos 1970, documentário mostra abusos na ditadura

LUCAS FERRAZ
DE BRASÍLIA
Trêmulo, em um portunhol sofrível e visivelmente abalado, o frade
dominicano Frei Tito narra sua saga pelos porões da ditadura
brasileira. "Me torturaram por três dias seguidos. No terceiro, um
capitão de nome Albernaz [Benoni de Arruda Albernaz] me torturou por
20 horas. Recebi fortes pancadas, choques elétricos em todo corpo."

Ele prossegue: "No quarto dia, sabendo que voltaria para a tortura,
tentei a morte cortando o pulso, numa tentativa de pôr fim à tortura".

O relato, premonitório, é um dos depoimentos de presos políticos
reunidos em "Brasil - O Relato de uma Tortura", documentário produzido
para a TV americana há 40 anos para denunciar as violações aos
direitos humanos no regime militar brasileiro (1964-1985).

Depois de 40 anos, ele será exibido pela primeira vez na televisão
brasileira hoje, à 0h15, no Canal Brasil.

Produzido pelos cineastas americanos Haskell Wexler e Saul Landau
(Wexler foi diretor de fotografia de "Um Estranho no Ninho"), o
documentário retrata o "Grupo dos 70", presos políticos levados para o
Chile em troca da libertação do embaixador suíço no Brasil Giovanni
Enrico Bucher, o último diplomata sequestrado pela esquerda armada, no
final de 1970.

No Chile, Wexler e Landau produziam um documentário sobre o então
presidente Salvador Allende. Souberam dos brasileiros e gravaram as
entrevistas em janeiro de 1971.

Os próprios brasileiros encenam as práticas a que os presos foram
submetidos. Eram muitas: pau de arara, afogamentos, choques,
palmatórias e "pau de estrada", que consiste em amarrar os braços do
preso em um carro e as pernas em outro, cada um indo em uma direção.

A encenação do "pau de estrada" (veja cenas ao lado) foi feita pelo
chileno Jorge Mueller, assistente de câmera. Ironicamente, dois anos
depois, quando Augusto Pinochet depôs Allende, ele foi preso,
torturado e, consta, jogado ao mar. Mueller integra a lista dos
desaparecidos políticos chilenos.

Dos 70 brasileiros, 16 já morreram -alguns tragicamente, ao retornar
para a luta armada no Brasil. Três deles se mataram. Maria Auxiliadora
Lara Barcelos, que sofreu torturas sexuais, enforcamento e simulação
de fuzilamento, se jogou nos trilhos do metrô de Berlim em 1976.

Gustavo Buarque Schiller pulou do prédio em que vivia, em Copacabana, em 1985.

Frei Tito se matou enforcado no interior da França, em 1974. No
depoimento, ele resume aqueles anos: "A única coisa democrática no
Brasil é a tortura".

NA TV
Brasil - O Relato de uma Tortura
Estreia de documentário
QUANDO hoje, 0h15, no Canal Brasil
CLASSIFICAÇÃO não informada

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sábado, 4 de agosto de 2012

Sexo e vergonha

Contardo Calligaris


Os que consideramos maníacos sexuais são apenas os que praticam mais
sexo do que a gente

Imagine alguém que acaba sua noite com um sexo rápido e intenso, em
pé, embaixo de uma ponte, e eis que, uma vez em casa, ele entra na
internet e transa virtualmente com uma stripper de site on-line.
Não há gozo que lhe baste: sempre sobra a vontade de mais uma vez,
mesmo que seja se masturbando com esforço. Outra noite, depois de ter
brincado pesado com uma moça num bar, ele se pega com um cara no
labirinto de uma boate gay: na procura por mais sexo, vale tudo.
Mas cada rosa tem seus espinhos. O disco rígido do nosso jovem está
repleto de pornografia, até no computador do escritório -o que é
arriscado. E, sobretudo, ele está aflito: a vergonha o leva a jogar
fora (periodicamente) os apetrechos de sua sexualidade fantasiosa, e
ele sente culpa de não conseguir ser o irmão, o amigo -e, quem sabe, o
namorado- que ele talvez gostasse de ser.
Se esse alguém pedir ajuda a um terapeuta, alguns colegas tirarão da
manga o "diagnóstico" de sexo-dependência ("sexual addiction") e
proporão o programa em 12 passos (ensinado nas especializações em
sexo-dependência), para que o indivíduo aprenda a se controlar e a
renunciar, ao menos em parte, ao sexo, que teria se tornado, para ele,
uma espécie de droga.
Mesmo sem acreditar nos 12 passos, outros colegas concordarão com o
diagnóstico e simpatizarão com o "óbvio" sofrimento do
"sexo-dependente" -afinal, eles imaginarão, essa prática endemoniada
do sexo "deve", no mínimo, aviltar o indivíduo aos seus próprios
olhos.
Outros colegas ainda (e eu com eles), ao receber o pedido de ajuda de
um suposto sexo-dependente, reagiriam de maneira diferente: não se
preocupariam nem com as fantasias, nem com as práticas sexuais do
paciente, mas com a culpa e a vergonha que as acompanham.
Eu também anunciaria ao paciente que não sei (ninguém sabe)
disciplinar o desejo sexual; só posso, se ele quiser, tentar
disciplinar a culpa e a vergonha que azucrinam sua vida e estragam
seus prazeres.
Quem viu "Shame" (vergonha), de Steve McQueen, percebeu que nosso
paciente hipotético se parece com o protagonista do filme.
Em cartaz desde sexta passada, "Shame" é, ao mesmo tempo, ousado e
careta. Ousado, pelo retrato da procura sexual do protagonista
(muitos, sem dúvida, se reconhecerão), e careta, porque essa procura
parece ser necessariamente doentia, culpada e vergonhosa.
Concordo com Cássio Starling ("Ilustrada" de 16/3): o filme é ótimo,
mas discordo do destaque do artigo, segundo o qual "McQueen foge do
moralismo ao abordar a compulsão por sexo". Quem enxerga o desejo
sexual do outro como uma patologia é sempre moralista. Em matéria de
sexo, patologizar é o jeito moderno de estigmatizar e policiar
(conselho: fuja de parceiros que acham você "doente").
McQueen (na mesma "Ilustrada") declarou que o negócio dele é desafiar
as pessoas. Ora, apresentar um obcecado por sexo como um doente que
sofre de vergonha e culpa, isso não é desafio algum -ao contrário, é a
confirmação de um lugar-comum.
Um lugar-comum confirmado por psiquiatria e psicologia? Nem isso.
Certo, desde o século retrasado, a psiquiatria e a psicologia são
regularmente chamadas a substituir a religião, que (digamos assim)
cansou de ser a grande ordenadora e controladora do comportamento
humano. No caso, a ideia da "sexo-dependência" surgiu nos anos 1970
-provavelmente, como reação contra o interesse "excessivo" pelo sexo
durante a dita liberação sexual dos anos 1960.
Mas, sentindo talvez o bafo do moralismo, muitos psiquiatras e a
psicólogos receberam essa categoria diagnóstica com desconfiança. Quem
a adotou e promoveu foram a imprensa e o grande público (e isso bastou
para que surgisse uma pequena indústria de clínicas, programas
universitários etc.). Mas por quê, então, esse sucesso popular da
"sexo-dependência", na qual McQueen parece acreditar?
Apenas uma constatação: a associação de sexo com vergonha e culpa é um
bordão cultural muito antigo, no qual somos convidados a acreditar por
todo tipo de poder. A exigência de domesticar o desejo sexual parece
ser, aos olhos de todos, um pré-requisito básico de qualquer ordem
social.
Além disso, há a eterna inveja dos reprimidos: como dizia Alfred
Kinsey, em regra, os que consideramos doentes e maníacos sexuais são
apenas os que praticam mais sexo do que a gente.

Artigo da Folha de São Paulo- Ilustrada

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Feira do Livro de Frankfurt traz evento a SP

A partir de terça, a entidade reunirá 33 palestrantes de países como
Colômbia, Índia e Reino Unido na conferência Contec-Brasil, sobre
tecnologia, cultura e alfabetização. O evento, no auditório
Ibirapuera, em São Paulo, tem inscrições gratuitas.

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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Não podemos pagar 'no escuro' pelo salário dos nossos servidores públicos

CLAUDIO WEBER ABRAMO
ESPECIAL PARA A FOLHA
A EXIBIÇÃO DE DIFERENÇAS SALARIAIS MARCANTES SERVE PARA EVIDENCIAR
FAVORECIMENTOS INDEVIDOS

Em condições normais, ninguém paga uma conta sem saber o que está
pagando. Até a promulgação da lei de acesso à informação, as condições
no Brasil não eram normais quanto a isso, em particular no que se
refere aos salários dos funcionários públicos. Pagávamos no escuro.

A nova regulamentação traz o assunto à normalidade. Não é esse o
entendimento de muitas associações e sindicatos de servidores
públicos. Tais entidades têm procurado frustrar o direito de
informação do contribuinte com base em dois argumentos: a divulgação
violaria a privacidade dos servidores; além disso, colocaria em risco
a sua segurança.

Nada disso se sustenta.

Em primeiro lugar, funcionários públicos não gozam dos mesmos direitos
relativos à privacidade que cidadãos privados.

Não apenas salários, mas outras informações a respeito da vida
funcional dizem respeito ao seu papel como servidores do público, ou
seja, nossos empregados. Não faz sentido que eles nos escondam
qualquer informação relativa ao seu desempenho.

Quanto ao argumento da segurança, é pueril, uma vez que a atenção de
criminosos não é despertada por listas, mas pelos hábitos de vida de
seus alvos: o tipo de comércio que frequentam, automóveis que dirigem,
as casas em que vivem etc.

As entidades que têm contestado a divulgação dos salários pagos a
servidores públicos descumprem a sua principal obrigação, que é
defender os interesses de seus associados.

Afinal, a exibição de diferenças salariais marcantes entre
funcionários que exercem atividades semelhantes e que tenham
percorrido carreiras parecidas serve, entre outras coisas, para
evidenciar favorecimentos indevidos.

CLAUDIO WEBER ABRAMO é diretor executivo da Transparência Brasil

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8 coronéis da PM receberam mais de R$ 50 mil em junho

Teto salarial do serviço público é de R$ 26,7 mil; Alckmin recebeu R$ 14.019,84

Militar recebeu mais de R$ 254 mil no mês; total inclui salário e
outros benefícios, como indenização e férias

ANDRÉ CARAMANTE
DE SÃO PAULO
Apenas oito coronéis da Polícia Militar de São Paulo receberam juntos,
em junho deste ano, R$ 773,5 mil de pagamento do governo estadual,
entre salários e benefícios.

Os vencimentos líquidos desses oficiais variaram de R$ 51.689,33 a R$
254.099,57.

O valor pago a cada um deles ultrapassa o teto do serviço público, de
R$ 26,7 mil. Também supera o que o governador Geraldo Alckmin (PSDB)
recebeu no mês: R$ 14.019,84, com descontos.

Um soldado em início de carreira na capital ganha, em média, R$ 2.530 por mês.

Há uma semana, por causa da lei de transparência assinada em maio pela
presidente Dilma Rousseff (PT), a gestão Geraldo Alckmin (PSDB) passou
a divulgar no Portal da Transparência Estadual
(www.transparencia.sp.gov.br) os vencimentos dos servidores do Estado.

Os valores pagos em junho podem incluir benefícios como férias,
adiantamento do 13º salário e indenizações, "além de benefícios
acumulados ao longo de uma carreira", diz nota da secretaria.

Salários acima do teto, de acordo com o governo, só são pagos por
ordem judicial.

O policial mais bem pago em junho foi o coronel da PM Ailton Araújo
Brandão, que recebeu R$ 254.099,57. A Secretaria da Segurança Pública
não explicou como foi possível chegar a esse valor -o governador pediu
que o caso do coronel fosse averiguado.

No site, estão os salários de todos os servidores da área da Segurança
Pública, como os dos 166 delegados de classe especial da Polícia
Civil, o topo da carreira no Estado.

Em junho, Oswaldo Arcas Filho foi o delegado de classe especial que
recebeu o maior vencimento líquido:

R$ 20.609,39. A Folha tentou ouvir os dois policiais, mas a assessoria
da secretaria não atendeu a esse pedido.

'RISCO DESNECESSÁRIO'

Para o delegado George Melão, presidente do Sindicato dos Delegados de
Polícia de São Paulo, a exposição dos salários dos policiais pelo
governo tem dois lados: "a comprovação da disparidade entre o que
recebem policiais militares e civis e a exposição desnecessária dos
servidores da segurança pública".

A Associação dos Cabos e Soldados da PM afirmou que não ia comentar a
disparidade entre os salários pagos aos praças e aos oficiais por se
tratar de "assunto interno".

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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Salário nivelado pode engessar qualidade universitária no país

EDITOR DE PRINCIPAL RANKING DE UNIVERSIDADES DO MUNDO AFIRMA QUE O
BRASIL INCENTIVA POUCO COMPETITIVIDADE DE SUAS INSTITUIÇÕES

Simon Plestenjak/Folhapress

Phil Baty, editor do ranking universitário THE, posa durante
entrevista na Unicamp
SABINE RIGHETTI
ENVIADA ESPECIAL A CAMPINAS
O Brasil precisa ter mais flexibilidade nas suas universidades de
elite, como a USP, para conseguir ser competitivo internacionalmente.

A opinião é de Phil Baty, editor do THE (Times Higher Education),
considerado hoje o principal ranking universitário internacional.

Para Baty, o sistema de contratação das universidades públicas
brasileiras, que padroniza salários e impede o recrutamento de grandes
nomes estrangeiros, engessa o ensino superior do país.

"As universidades fazem parte de um processo de inovação que
impulsiona o desenvolvimento econômico. O Brasil tem de entender
isso."

O THE avalia anualmente dados de 700 universidades do mundo e
classifica as 200 primeiras. Entre essas, a USP hoje figura como única
representante da América Latina, em 178º lugar.

Baty esteve no Brasil a convite do Ministério da Educação para falar
sobre rankings universitários internacionais. Eles são usados para
auxiliar a gestão da pós-graduação (por exemplo, na seleção de
universidades de fora para as quais enviar alunos).

Ele também passou pela Unicamp para participar de um evento sobre
ensino superior. Lá, conversou com a Folha com exclusividade.

Folha - Você esteve no MEC e na Unicamp, a segunda maior universidade
do país de acordo com o THE. Qual é a sua percepção sobre o Brasil?
Phil Baty - O Brasil está crescendo, já é a sexta maior economia do
mundo. Por isso, está cada vez mais interessado nos rankings
universitários internacionais. O país quer ter certeza de que tem
universidades competitivas internacionalmente. Entender a elaboração
dos rankings faz parte desse processo.

Há países que concorrem com o Brasil que estão se dando muito bem nos
rankings. É o caso da China, que já tem uma universidade entre as 50
melhores do mundo na lista do THE [Universidade de Hong Kong, em 34º
lugar]. O que acontece no ensino superior da China? É uma questão
apenas de injetar muito dinheiro nas universidades?
O governo chinês está com uma posição muito clara e agressiva de
investimento no ensino superior. A China tem cerca de dez
universidades que quer transformar em "world class" [competitivas
mundialmente].
Além disso, o governo chinês entendeu que as universidades fazem parte
de um processo de inovação que impulsiona o desenvolvimento econômico.
É isso que deve ser feito pelo Brasil.
O país tem de escolher um pequeno número de universidades para serem
competitivas em todo o mundo e deve investir nessas instituições.
Essas universidades devem ter os melhores professores, talvez até
professores com premiações como o Prêmio Nobel.
Além disso, a China também tem investido em publicar artigos
científicos em inglês, o que aumenta o impacto desses trabalhos, e até
em ter aulas em inglês.
Essa talvez seja uma área na qual o Brasil deveria investir mais:
publicar e dar aulas em inglês.

Estamos longe disso.
Sim, e isso é muito ruim. A língua inglesa é uma espécie de língua
franca da educação. O Brasil tem pesquisas fantásticas em ciências
agrícolas e doenças tropicais, por exemplo. Faz sentido que as
universidades publiquem e que tenham aulas em inglês.
As universidades brasileiras têm condições de competir. Elas são muito
novas -a Unicamp, por exemplo, tem menos de 50 anos e já está
competindo com universidades europeias que são medievais, centenárias.
O Brasil tem investido em ensino superior recentemente. O país
expandiu fortemente a quantidade de universidades federais. Agora é
preciso desburocratizar o sistema.
As universidades precisam de mais liberdade, autonomia e
flexibilidade. A USP é a universidade mais autônoma do país e é a
instituição brasileira melhor posicionada no ranking THE. Mas ainda
assim a universidade precisa de muito mais autonomia para gerir seu
dinheiro, fazer negócios, contratar professores com salários
competitivos internacionalmente.
É preciso criar um mecanismo para atrair os melhores professores do
mundo. Se você quer ter os melhores, precisa pagá-los de acordo.
Já podemos ver algumas iniciativas nesse sentido. O programa "Ciência
sem Fronteiras", por exemplo, mostra um comprometimento do governo
brasileiro para enviar estudantes para países como EUA, Reino Unido,
Alemanha e França.
Mas existem alguns problemas. O formato de contratação dos
professores, por meio de concursos, por exemplo, é muito bom para o
professor; já do ponto de vista da competitividade é péssimo.

Isso é um problema comum no países economicamente parecidos com o Brasil?
Há algumas diferenças. A Rússia, por exemplo, também sofre com falta
de flexibilidade. O país tem instituições de ensino superior
fantásticas, como a Universidade do Estado de Moscou. Mas parte dos
talentos foram perdidos com a queda do regime soviético. As
universidades da China também têm pouca liberdade, mas devido às
características do governo chinês.

Imagino que algumas universidades não gostem dos resultados do THE. Na
última listagem, por exemplo, o Caltech passou Harvard e ficou em
primeiro lugar. Como essas coisas repercutem?
Bom, o ranking THE é feito pela nossa revista, que tem 14 anos e uma
certa credibilidade no mercado. Nós temos um grupo de cerca de 50
consultores ao redor do mundo.
Além disso, nós trabalhamos com um processo muito aberto, publicamos
vários artigos sobre metodologia de rankings, o problema dessas
listagens etc. Mas claro que nunca vamos agradar a todas as
universidades.
Tem gente que diz que nossa metodologia só beneficia os países ricos.
Justamente por isso, a partir de 2010 nós decidimos mandar nosso
questionário em várias línguas, como português, chinês e árabe [um dos
critérios de avaliação do THE é o indicador de reputação da
universidades, que vale 30% da "nota" final].
Mas não existe um ranking perfeito, não existe uma metodologia
perfeita. As universidades do topo, como Caltech, Harvard e Stanford,
têm notas muito parecidas e estão próximas.
O Caltech teve vantagens porque é uma universidade muito focada em
algumas áreas, como a física. Já Harvard é uma universidade imensa,
forte em diversas áreas. A maioria das listagens, como o THE e o
ranking de Xangai [feito desde 2003 pela China] tende a valorizar
indicadores de produção científica de alto impacto.
O ranking de Xangai, por exemplo, dá mais pontos para as universidades
que têm mais artigos científicos publicados especificamente nas
revistas "Nature" e "Science". Nesse caso, universidades como Harvard,
que são muito fortes em humanidades, tendem a perder pontos.

Qual é a sua opinião sobre rankings nacionais?
As listagens nacionais são mais difíceis. Se você fizer um ranking do
Brasil, por exemplo, vai comparar universidades de elite, como a USP,
com universidades pequenas e novas. Já o ranking internacional compara
universidades de elite que são mais parecidas. No entanto, os rankings
nacionais funcionam muito bem para fazer um retrato do ensino superior
nacional e para orientar políticas públicas locais.

O sr. pode apontar alguns destaques da próxima listagem do THE que
sairá em outubro?
Estamos terminando de processar as informações. Mas posso dizer que
haverá mudanças nas universidades do topo. Haverá instituições novas
entre as melhores do mundo porque as americanas perderam muito
dinheiro com a crise. Também acredito que a Unicamp fique mais perto
da USP na próxima listagem. Mas não haverá grandes mudanças de
posições das universidades.

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

historiadora Dagmar Herzog, da Universidade da Cidade de Nova York

Ficou muito difícil para pais pressionarem para que haja educação
sexual, porque os outros olham como se eles fossem sujos e perigosos.
Para historiadora, EUA têm vergonha de falar sobre sexo

Conservadores cristãos se apropriaram de parte do discurso da
revolução sexual e a fizeram retroceder no país, diz acadêmica

Consulado dos EUA/Divulgação

A historiadora Dagmar Herzog, da Universidade da Cidade de Nova York
CRISTINA GRILLO
DO RIO
Ao se apropriar de partes do discurso da revolução sexual, prometendo
prazeres ilimitados para aqueles que seguissem seus preceitos -como
condenar aborto, homossexualidade e sexo antes do casamento-,
evangélicos e católicos de correntes mais conservadoras nos EUA
conseguiram, em poucos anos, desfazer muito do que essa revolução
havia conquistado.

É o que afirma a historiadora Dagmar Herzog, 51, professora da
Universidade da Cidade de Nova York e autora de livros que analisam a
evolução da sexualidade.

"Nenhum movimento conservador consegue sucesso se for apenas
repressivo", afirma. Mas o que se tem hoje, diz Herzog, é uma
juventude muito mais desconfortável com sua sexualidade do que as
gerações dos anos 90.

Ao mesmo tempo, segundo ela, o discurso que incentiva a sexualidade
pós-casamento criou uma indústria de manuais de sexo cristão e de sex
shops online -"há até 'vibradores cristãos' à venda".

Herzog falou à Folha na semana passada no Rio.

Folha - Em seu livro, "Sex in Crisis" ("Sexo em crise", 2008, não
traduzido no Brasil) a senhora afirma que houve uma nova revolução
sexual nos EUA a partir dos anos 90, mas desta vez com viés
conservador. Como ela aconteceu?

Dagmar Herzog - O movimento pelos direitos religiosos, que surgiu nos
anos 90, se tornou um movimento sexualmente conservador. Tomou conta
das congregações cristãs nos EUA, excluiu pastores com ideias mais
liberais, levou ao Congresso legisladores mais conservadores e
culminou com a eleição de George W. Bush para a Presidência
(2000-2009).

Esse movimento foi bem-sucedido em intimidar os democratas e a parcela
da população que sempre considerou como direitos líquidos e certos ter
acesso a meios de contracepção e que seus filhos tivessem aulas de
educação sexual nas escolas.

Foi um grande choque quando eles perceberam que os conservadores
estavam vencendo a batalha e que os liberais não conseguiam nem mesmo
abrir a boca para apresentar suas opiniões.

E como isso aconteceu?

Há três explicações. O movimento pelos direitos religiosos é, de certa
forma, o filho ilegítimo da revolução sexual dos anos 60 e 70, já que
também promete prazeres sexuais. Nenhum movimento conservador teria
sucesso hoje se fosse apenas repressivo. Tem que prometer prazer para
seus seguidores.

Os manuais de sexo cristão são bastante pornográficos e explícitos.
Prometem aos fiéis décadas de paraíso matrimonial desde que sigam
algumas regras. Basta ser contra homossexuais, aborto e sexo antes do
casamento.

Há vários sites que vendem produtos eróticos para cristãos [neles há
sempre a menção de que os produtos são indicados para casados, como
forma de "apimentar" a relação]. Há até vibradores.

Existe um mundo subterrâneo que se aproveita do discurso da revolução
sexual, mas fala do sexo de forma a lhe dar mais valor do que a
esquerda e os democratas.

Esse movimento também se apoderou de elementos do feminismo, como o
desconforto com a pornografia, com a prostituição, o desejo da mulher
de ser adorada e desejada por seus maridos. Dessa forma, falam de
forma muito inteligente às mulheres. Esse é o primeiro ponto: a
promessa do prazer.

Qual é o segundo ponto?

É o fato de que eles têm um linguajar secular. Não falando em Deus,
mas sim em saúde, bem-estar psicológico e autoestima, eles
transformaram o discurso nas escolas secundárias nos EUA.

Afirmam que, se alguém faz sexo antes do casamento, se usa
pornografia, tem baixa autoestima. Nesse discurso, os homossexuais ou
têm baixa autoestima ou vão criar filhos com baixa autoestima. Eles
trouxeram todos os seus conceitos religiosos para a linguagem da
psicologia.

No discurso público, inclusive em sua campanha homofóbica, eles usam
argumentos seculares. Em sua luta contra o homossexualismo, focam no
conceito de que é algo sujo, vulgar, indecente e um perigo para as
crianças.

O que mais levou ao sucesso do movimento?

Eles atuam nos desejos mais profundos de aceitação e esperança que as
pessoas têm. A ansiedade que se tem de ser amado por toda a vida, de
manter a paixão ao longo do casamento, o sentimento de proteção dos
filhos.

Quando falam contra a pornografia, dizem: "Você quer ser amada pelo
que é, e não ter seu marido pensando em outra pessoa quando está com
você". É um raciocínio muito sofisticado, porque mexe com os
sentimentos em seus estágios mais primários.

O grande problema é que esse discurso não se dirigiu só àqueles
afiliados a essas igrejas, mas a todo o país. Eles conseguiram mudar a
forma como as aulas de educação sexual são ministradas.

Fizeram um trabalho terrível ao conseguir cortar verbas dos programas
de distribuição de preservativos e insistir no discurso da abstinência
sexual. No fim, implantaram um discurso moralista.

Como os jovens americanos de hoje lidam com o sexo?

A educação para a abstinência tomou conta de praticamente todo o país,
mas os adolescentes continuam a fazer sexo. Não ouvem aqueles que
pregam a abstinência. Talvez adiem um pouco o início da vida sexual,
mas, quando começam, o fazem sem proteção contra gravidez ou doenças.
É um problema.

E os pais desses jovens, de que forma lidam com a situação?

Estão tão histéricos com a sexualização precoce de seus filhos que
resistem à volta das aulas de educação sexual. O que temos é uma
radical deterioração, em comparação com os anos 90, da informação
disponível para os adolescentes. Os jovens dos anos 90 se sentiam
muito mais confortáveis com relação ao sexo do que os de hoje.

Há duas décadas, os pais encaravam sexo entre adolescentes como algo
normal. Ensinavam seus filhos sobre responsabilidade, amor, mas a
mudança na opinião pública levou à intimidação.

O mais duro é que as pessoas voltaram a sentir vergonha de falar sobre
sexo. Os pais se sentem, então, muito desconfortáveis para defender
seus pontos de vista, para si mesmos e para seus filhos.

Ficou muito difícil para pais pressionarem para que haja educação
sexual, porque os outros olham como se eles fossem sujos e perigosos.

Nesse quadro conservador, como ficam as meninas?

O maior problema tem sido a perda de poder das meninas. Se numa escola
se usa um par de tênis sujos e gastos como símbolo de virgindade
perdida, é claro que quem se sente mais fraco e vulnerável são as
meninas.

Há 20 anos eu dou aulas de história da sexualidade para jovens
universitários e vejo uma grande mudança. As jovens não estão mais
confortáveis, confiantes sobre o que querem ou não fazer. A confiança
foi danificada e precisa ser recuperada. Mesmo as congressistas
democratas passam por momentos difíceis porque ninguém quer falar
publicamente sobre sexo.

De que forma o outro lado tem reagido a essa onda conservadora? Ou não
tem reagido?

A comunidade LGBT é extremamente organizada e tem feito um bom
trabalho lutando contra os conservadores, com slogans como "eu também
quero me casar" e "meus filhos são felizes e sabem que são amados".
Hoje, 50% da população é favorável ao casamento entre pessoas do mesmo
sexo, o que é um grande avanço em relação ao que ocorria há cinco
anos.

A intimidação agora mira nos direitos reprodutivos femininos. É onde
vemos o maior retrocesso. A discussão não é mais só sobre aborto, mas
também sobre o direito à contracepção.

Só nos últimos meses as mulheres voltaram a lutar. Lisa Brown,
deputada em Michigan, usou a palavra "vagina" na Assembleia estadual e
foi censurada, impedida de falar no plenário, o que causou uma série
de protestos.

[Em junho, a deputada fez um discurso contra um projeto que restringia
as condições para abortos e concluiu sua fala dirigindo-se aos
deputados: "Fico lisonjeada que todos vocês estejam tão interessados
na minha vagina, mas 'não' significa 'não'".]

É uma interferência nunca vista nos direitos das mulheres. Há uma
crescente mobilização feminina, mas é difícil.

As pessoas estão tentando falar agora, mas os conservadores levam
vantagem porque se sentem mais confortáveis em defender seus pontos de
vista. Essa situação esteve presente na Rio+20, quando o tópico a
respeito dos direitos reprodutivos das mulheres foi excluído do
documento final por pressões religiosas.

Não sei como as mulheres podem aprender com o movimento LGBT, mas
alguém tem que ir a público e dizer que mesmo os casamentos
monogâmicos heterossexuais precisam de meios contraceptivos. É uma
lição que precisamos aprender: se eles foram criativos para montar o
discurso conservador, nós também precisamos ser criativos para lutar
de volta.

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quinta-feira, 19 de julho de 2012

curtas-metragens da guerra civil espanhola -sabado,21/7

Centro de Cultura Social

convida

 

Mostra de curtas-metragens sobre a Guerra Civil Espanhola

 

Movimento revolucionário em Barcelona (Movimiento revolucionario en Barcelona). Espanha, 1936, preto e branco, 22min.

Produzido por: CNT-FAI (Oficina de Información y Propaganda)

 

Barcelona trabalha para  frente (Barcelona trabaja para el frente). Espanha, 1936, preto e branco, 23min.

Produzido por: Comité Central de Abastos de Barcelona

 

O enterro de Durruti (El entierro de Durruti). Espanha, 1936, preto e branco, 11min.

Produzido por: CNT-FAI

 

Ajudar Madri (Ayuda a Madrid). Espanha, 1936, preto e branco, 7min.

Produzido por: CNT-FAI (Oficina de Información y Propaganda)

 

Os fimes não são legendados.

 

21 de julho de 2012,

sábado às 18:00h
 

 

Rua Gal. Jardim n.º 253 – sala 22 (metrô república)

www.ccssp.org

ccssp@ccssp.org

 

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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Onde os jovens morrem

Estudo mostra que homicídio de jovens com até 19 anos cresceu 376%
desde 1980; Alagoas tem a maior taxa do país

AFONSO BENITES
DE SÃO PAULO
Era 26 de março de 2010 quando Rafael Souza de Abreu, 16, virou mais
um número para pesquisadores de segurança pública.

Nessa data, ele foi morto com oito tiros perto da casa de um amigo em
Santos (SP).

Segundo seu pai, o operador portuário José de Abreu, e a Promotoria, o
rapaz foi confundido com um ladrão de uma loja de roupas e foi morto
em represália a um furto que não praticou.

Assim, ele passou a ser um dos 8.686 adolescentes e crianças
assassinados naquele ano e engrossou a lista que, desde 1980, aumentou
376%. No mesmo período, entre 1980 e 2010, os homicídios como um todo
cresceram 259%.

Os dados são do "Mapa da Violência 2012 - Crianças e Adolescentes do
Brasil", pesquisa que será lançada hoje.

O levantamento analisa as informações do Ministério da Saúde sobre as
causas das mortes de pessoas entre zero e 19 anos de idade.

O ritmo de crescimento da morte entre jovens é constante. Em 30 anos,
só teve queda quatro vezes. Nos demais aumentou entre 0,7% e 30%.

Um dado que chamou a atenção do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz,
coordenador da pesquisa, foi quanto os homicídios de jovens
representava no total de mortes. Em 1980, eles eram pouco mais de 11%
dos casos de assassinato. Já em 2010, 43%.

"Os homicídios de jovens continuam sendo o calcanhar de aquiles do
governo. Esse aumento mostra que criança e adolescente não são
prioridade dos governos", disse.

Entre os Estados em que houve maior aumento dos assassinatos de jovens
estão Alagoas, com uma taxa de 34,8 homicídios por 100 mil habitantes,
Espírito Santo (33,8) e Bahia (23,8).

Segundo Waiselfisz, vários fatores influenciam o aumento em
determinadas regiões. Um deles é a interiorização dos homicídios.

"Antes, a maior parte dos crimes acontecia nos grandes centros. Agora,
com a melhor distribuição de renda, houve uma migração da população e
os governos não conseguiram implantar políticas públicas para
acompanhar essa mudança", disse.

Os Estados que apresentaram as menores taxas foram Santa Catarina,
(6,4), São Paulo (5,4) e Piauí (3,6).

Para Alba Zaluar, antropóloga da Universidade Estadual do Rio, os
dados devem ser analisados com "cuidado", já que entre 2002 e 2010
houve uma melhora na qualificação das estatísticas sobre mortes. Ou
seja, casos que antes constavam como "outras violências" nos dados
oficiais passaram a ser homicídios.

"É muito complicado falar do aumento de mortes por agressão no Brasil
como um todo", afirmou Zaluar.

Waiselfisz diz que a pesquisa aponta que os problemas existem e serve
de alerta para governos tentarem reduzir o índice, que já incluiu o
assassinato do jovem Rafael.

Em tempo: quatro pessoas, sendo três policiais, foram acusadas pela
morte do adolescente. Mas o julgamento ainda não aconteceu.

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terça-feira, 17 de julho de 2012

Projeto quer derrubar 34 hectares de área preservada para assegurar abastecimento até 2020

Obra da Sabesp vai repor um terço da água desperdiçada pela estatal
Sistema de captação vai custar R$ 1 bilhão; estatal quer reduzir o
desperdício na rede de 26% para 15% até 2019

EDUARDO GERAQUE
DE SÃO PAULO
A Sabesp vai iniciar até o começo do ano que vem uma obra estimada em
R$ 1 bilhão para captar água no Vale do Ribeira e trazer para a Grande
São Paulo. Uma distância de cerca de 80 km.

Se o projeto for mantido, 5.000 litros de água por segundo serão
desviados da bacia do rio Ribeira de Iguape, em 2016. O novo volume
representa 9% do que a Sabesp vende na Grande São Paulo.

A nova fonte de água, no entanto, equivale hoje a um terço do que a
estatal desperdiça em sua rede -26% da água, ou 17,4 mil litros por
segundo, é jogada fora.

A meta da companhia é chegar a um índice de desperdício de 15% em
2019, padrão verificado em cidades europeias e norte-americanas.

ÁGUA ESTRANGEIRA

Pela primeira vez na história, a empresa vai captar água fora da
região metropolitana.

O projeto, que depende da destruição de 34 hectares de mata atlântica,
inclui ainda a intervenção (sem desmate total) em 52 hectares de áreas
de proteção permanente e a retirada de centenas de pessoas para
garantir equilíbrio na distribuição de água para a Grande São Paulo
até 2020.

Depois disso, a estatal vai ter de encontrar nova fonte de captação de água.

Em uma obra que nasce como paliativa, a Sabesp vai destruir o
equivalente a 43 campos de futebol de mata preservada para não deixar
parte dos moradores da região metropolitana sem água em menos de dez
anos. A supressão também vai afetar matas urbanizadas, o que aumenta o
estrago para cerca de 70 campos de futebol.

Por força da lei ambiental, duas audiências para discutir o projeto
serão feitas em Ibiúna e Cotia em agosto.

IMPACTOS

Os impactos ambientais negativos podem ser vistos como um mal
necessário, mas especialistas dizem que a obra é insuficiente para
resolver o problema.

A própria diretora-presidente da Sabesp, em entrevista à Folha quando
tornou público o projeto [ontem ninguém da empresa deu entrevistas],
confirmou o efeito paliativo da obra.

A principal ressalva ao modelo é buscar água cada vez mais longe da
capital. A necessidade de novas obras, dizem especialistas, passará a
ser infinita se outras ações não forem consideradas.

"Nós precisamos repensar as outorgas de captação de água na Grande São
Paulo", defende Wagner Costa Ribeiro, geógrafo da USP.

Hoje, diz ele, existem empresas que captam água de forma intensiva na região.

"Na área de Mogi das Cruzes, duas ou três indústrias captam mais água
do que a cidade inteira", diz.

Para ele, deveria ser mantido o que prevê a legislação. "A prioridade
tem que ser dada para o abastecimento público e não industrial".

Outra ação para evitar o que Renato Tagnin, urbanista especialista em
planejamento ambiental, chama de "desrespeito aos padrões de segurança
da ONU para água" passa por atacar o desperdício das redes.

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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Amazônia já tem 'dívida de extinção', afirma pesquisa

Áreas desmatadas estariam condenadas a perder cerca de 10% de seus
mamíferos nas próximas cinco décadas

Atual queda do desmate pode minimizar essa tendência, desde que novo
Código Florestal não estimule derrubada

RAFAEL GARCIA
DE WASHINGTON
O desaparecimento de alguns animais na Amazônia é algo que passa quase
despercebido hoje, mas esse é um fenômeno que deve se tornar cinco
vezes maior.

"Cenários realistas sobre desmatamento sugerem que, em 2050, certas
regiões terão perdido, em média, nove espécies de vertebrados,
condenando outras 16 à extinção", diz uma nova pesquisa.

Apesar de a floresta já ter pedido, como um todo, 17% de seu
território, cada pequeno pedaço de terra na região perdeu em média
apenas 1% das espécies de aves, anfíbios e mamíferos que possuía.

Um trio de ecólogos do Imperial College de Londres explica agora por
que isso ocorre: a maioria das áreas está "devendo" em média 5% de
extinções para o futuro, e a situação pode piorar.

Em estudo na revista "Nature", os cientistas explicam que essa "dívida
de extinções" ocorre porque alguns animais conseguem evitar o sumiço
logo de cara. Conforme o tempo passa em uma área parcialmente
desmatada, porém, grupos de aves, mamíferos e anfíbios vão diminuindo
a cada geração. No final, alguns somem.

O trabalho publicado agora, liderado pelo ecólogo Robert Ewers,
calcula quantas espécies são perdidas no curto e longo prazo. No
estudo, os autores tratam apenas de fenômenos locais, analisando o que
aconteceria em uma área de 2.500 km2 na Amazônia. As previsões sobre
extinções totais, porém, já começaram a ser feitas.

MAIS DE CEM

"Nós rodamos o modelo tentando prever extinções globais e, no cenário
'business as usual' [em que o ritmo de desmatamento segue quase sem
controle da lei], terminamos com algo em torno de 45 espécies sendo
extintas e mais de cem sendo condenadas à extinção", disse Ewers à
Folha.

Em um artigo comentando o estudo de Ewers, Thiago Rangel, ecólogo da
Universidade Federal de Goiás, elogia o método estatístico criado
pelos britânicos para medir o perigo do desmatamento para a
biodiversidade.

"Antigamente a gente olhava para o mapa da Amazônia e via apenas quais
regiões estão mais desmatadas e quais estão sofrendo desmatamento
naquele momento", afirma. "Agora é possível enxergar uma medida
combinada de desmatamento e de riqueza de espécies."

Segundo Rangel, porém, os cenários de desmatamento com que Ewers
trabalha podem ser comprometidos no futuro. Um problema é o estado de
indefinição do novo Código Florestal -a lei que determina quantas e
quais partes da mata os fazendeiros podem desmatar.

O outro é o movimento para reduzir áreas de conservação para acomodar
hidrelétricas. No fim, pode ser que o cenário considerado mais
realista pelos britânicos passe a ser otimista demais.

Rangel também destaca que é difícil prever quando a "dívida de
extinção" de uma área parcialmente desmatada vence. "Uma espécie de
anfíbio vai ser afetada em cinco gerações, o que dá uns três anos",
diz. "Já um mamífero de grande porte, com maior capacidade de
locomoção, pode resistir por até 50 anos."

Apesar das limitações, Ewers defende que o conceito que criou seja
usado para planejar ações de conservação, incluindo a preservação de
mata que cresce em fazendas abandonadas na Amazônia, por exemplo.

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sábado, 7 de julho de 2012

8º Encontro ABCP, 01 a 04 de agosto de 2012.

Teoria Política e Cultura
Coordenação: João Feres Júnior (UERJ), Flávia Millena Biroli Tokarski (UnB)
Governamentalidade democrática e constituição do sujeito Nildo Avelino (UFPB)

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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Plataforma Lattes

Nildo Avelino
Plataforma Lattes: "página inicial | english
"

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