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terça-feira, 8 de março de 2011
Mulheres
Feminista libertária...
MARIA LACERDA DE MOURA (1887-1945)
Margareth Rago
Maria Lacerda escreve sobre inúmeros artigos e livros de crítica contundente à moral sexual burguesa, alinhando-se como os anarquistas e radicalizando a denúncia da opressão sexista sobre as mulheres pobres e ricas. Temas dificilmente discutidos por mulheres em sua época, como educação sexual dos jovens, virgindade, amor livre, direito ao prazer sexual, divórcio, maternidade consciente e prostituição figuram entre os mais importantes na extensa produção intelectual da militante mineira. Esta produção abrange tanto artigos publicados em vários jornais e especialmente na imprensa anarquista brasileira, argentina e espanhola, quanto a revista que lança em 1923, intitulada Renascença, especialmente voltada para a questão da formação intelectual e moral das mulheres e numerosos ensaios publicados em livros. Destes destacam-se: Emtorno da educação (1918); A mulher moderna e o seu papel na sociedade atual (1923); Religião do Amor e da Beleza (1926);Han Ryner e o amor plural (1928); Amai e não vos multipliqueis (1932); A mulher é uma degenerada? (1932);e Fascismo:filho dileto da Igreja e do Capital(s/d).
Maria Lacerda de Moura é considerada uma das pioneiras do feminismo no Brasil, tendo fundado, em 1921, aFederação Internacional Feminina. Anarco-feminista, é uma das poucas ativistas que se envolve diretamente com o movimento operário e sindical de sua época. Entre 1928 e 1937, a ativista libertária vive numa comunidade em Guararema (SP), no período mais intenso da sua atividade intelectual, tendo descrito esse período como uma época em que esteve "livre de escolas, livre de igrejas, livre de dogmas, livre de academias, livre de muletas, livre de prejuízos governamentais,religiosos esociais".
A militante anarquista morre no Rio de Janeiro,em 1945.
Nota: O principal livro sobre Maria Lacerda é de Miriam Moreira Leite: Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura. São Paulo: Ática, 1986, que acaba de realizar um vídeo sobre essa importante ativista política; veja, ainda, Margareth Rago – DoCabaré ao lar. A utopia da cidade disciplinar (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991, 3ªed.), cap. II, ppgs.95-110.
Simplesmente um Luxo!
Conheça Maria Bonita, a cangaceira que faria 100 anos nesta terça-feira
MOACIR ASSUNÇÃO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Nesta terça-feira (8), uma mulher muito importante para a História do Brasil faria 100 anos de idade. Seu apelido era Maria Bonita, mas ela se chamava Maria Gomes de Oliveira. Ela ficou conhecida por ser a companheira de Lampião, o rei do cangaço. Os dois eram cangaceiros, uma espécie de bandido mais ou menos como o Robin Hood, que lutava contra pessoas muito ricas que exploravam os pobres.
| Benjamin Abraão/Divulgação |
| Maria Bonita e Lampião |
Maria Bonita nasceu em 1911, na cidade de Paulo Afonso, na Bahia. Ela foi uma criança típica do lugar onde nasceu e tinha brincadeiras um pouco diferentes das que você conhece hoje: brincava nas lagoas, fazia bonecas de sabugos de milho --os cabelos do sabugo viravam os cabelos das bonecas--, andava a cavalo com o pai José Gomes de Oliveira e até ajudava a plantar milho e feijão.
Seus maiores companheiros nas brincadeiras eram seus irmãos. E ela tinha 11! Mas, como a casa onde moravam era grande, com muitos quartos, tinha espaço para todo mundo. E tinha também um pomar, onde dava para brincar de casinha, de esconde-esconde e de cabra-cega.
No entanto, naquela época, as crianças não aproveitavam muito a infância e se casavam cedo. Maria Bonita, por exemplo, casou quando tinha 16 anos com seu primo José Miguel da Silva, que era sapateiro. Mas, como não se dava bem com o marido, ela se separou logo depois e, aos 18 anos, conheceu Lampião e se apaixonou por ele.
O amor de Maria Bonita e Lampião era como esses que a gente vê no cinema. Ela gostava tanto dele que virou cangaceira como ele.
Vida de herói-bandido
Apesar de ter sido o cangaceiro mais famoso, Lampião não inventou o cangaço. Já existia esse tipo de bandido alguns séculos antes de ele nascer. Mas Lampião, que se chamava, na verdade,Virgulino Ferreira, decidiu ser cangaceiro nos anos 20, depois que seu pai foi morto por um policial e sua mãe morreu de tristeza.
A vida de Lampião, Maria Bonita e um grupo de homens era andar pelo sertão do Nordeste roubando os bens dos fazendeiros e coronéis. Por isso, algumas pessoas achavam que os cangaceiros eram maus, enquanto outras os viam como heróis, que combatiam os ricos.
Para homenagear Maria Bonita, a cidade onde ela nasceu vai organizar exposição de fotos, palestras e outras atividades. Os dois bandidos-heróis também apareceram em muitos filmes, músicas e livros, e são lembrados até hoje em todo o Brasil.
Movimento “Eu não pago”. Uma iniciativa grega para "não pagar a crise dos outros”
O que começou como uma iniciativa popular está se tornando um movimento de
desobediência civil em todo Estado, que já preocupa o Governo. Os gregos
que optam por não pagar o transporte público e os pedágios rodoviários são
cada vez mais, e os cofres estatais começam a ressentir-se.
Sob o lema "Den Pliróno" (eu não pago) estão agrupados cidadãos de todos
os tipos, com um objetivo comum: "Não pagamos a crise dos outros". Este
movimento decidiu não arranhar o bolso pelo transporte público ou pelos
pedágios nas rodovias. Os ativistas do movimento viajam sem bilhete,
sabotam as máquinas de venda automática ou levantam barreiras nos
pedágios. Publicam fotos em seu site e incentivam a seguir o exemplo.
E o certo é que estão conseguindo. Uma pesquisa realizada pelo MRB e
publicada neste domingo pela imprensa local disse que mais de 56% dos
gregos aprova essa forma de protesto, contra 39% que não apóia.
Iniciativa contagiosa
O número de passageiros que opta por viajar de graça aumentou para quase
40% em ônibus e em até 15% no resto dos meios de transporte, de acordo com
estimativas oficiais recolhidas pela midía. E as empresas concessionárias
estimam que entre 15% e 18% dos motoristas não pagam pedágio, em
comparação aos 6% que assim faziam há menos de um ano atrás. "Falamos
acerca de 8.000 usuários por dia”, afirma Nea Odos, uma empresa que opera
uma das rodovias no país.
O encarecimento das tarifas dos transportes urbanos, que variam entre 28%
e 80% e também nos pedágios, aumentou o tom das ações, que culminaram em 1
de março em uma manifestação que atingiu as portas do Parlamento. "O
pagamento de 1,40 € por um bilhete? Um aumento de 40%, quando tudo mais
reduziu: salários, pensões, subsídios", disse à midía Maro Fassea, um
consultor de TI de 48 anos de idade.
Desde que a Grécia lançou medidas de austeridade para reduzir o déficit e
atender às exigências de Bruxelas e do FMI, funcionários públicos e
aposentados tiveram seus salários e pensões reduzidos. Além disso,
impostos como o IVA subiram ao mesmo tempo, sofrendo com o aumento da
inflação. O resultado é, segundo alguns economistas, uma perda de até 25%
do seu poder aquisitivo.
O resultado é que já são milhares de pessoas que pedem que seja "a
plutocracia" que pague a conta da crise, e exigem que se lute contra a
sonegação de impostos para tapar os buracos no orçamento do Estado.
Os riscos
Isto é assim apesar dos esforços do governo helênico para conter os atos
de revolta pública, endurecendo as multas e criticando duramente seus
instigadores. "Não é um movimento, são uns aproveitadores", declarou
recentemente o porta-voz do governo, Yorgos PetalotÍs.
Por sua parte, o primeiro-ministro grego, Yorgos Papandreu, alertou para o
risco crescente de que este movimento afete não apenas o orçamento do
Estado, mas também futuros investimentos comprometidos pelas empresas. "Se
os contratos falham, o que é uma possibilidade, a credibilidade do país
será prejudicada", disse ele ao Congresso.
Em novembro passado, Papandreu anunciou que tinha sido adiada, até 2021, a
devolução da ajuda da UE, totalizando cerca de 110 mil milhões de euros.
O movimento “Não pago” da Grécia é mais uma das muitas iniciativas dos
cidadãos, que estão surgindo nos países mais afetados pela crise. Na
Espanha, por exemplo, a Rede serve como base à Juventude em Ação,
Anonymous ou Nolesvotes.com, para organizar e divulgar seus protestos
contra a gestão do governo ou aos bancos, por exemplo.
http://imslp.org/ - Site oferece acesso grátis a acervo com 85 mil partituras
DE NOVA YORKVilla-Lobos? Ele está lá, assim como Mozart, Gershwin e Ernesto Nazareth. Integram um repertório que está hoje na internet e pode ser acessado, gratuitamente, por qualquer interessado.
Essa é a ideia do International Music Score Library Project (imslp.org), um site que reúne partituras de artistas de diferentes épocas e países e que é alimentado pelos próprios internautas.
Segundo estimativas do site, hoje há mais de 85 mil partituras -número que cresce aos milhares todos os meses, à medida que mais pessoas vão colaborando.
Essa colaboração pode ser feita tanto colocando no site obras que já estão disponíveis na internet quanto escaneando material que, de outra forma, seria muito mais difícil de encontrar.
O International Music Score Library Project usa a plataforma wiki (ou seja, é muito parecido visualmente com a Wikipedia) e adota a mesma cultura: cabe aos usuários o controle de qualidade, seja na indicação de alguma página que esteja faltando, seja na certificação de que ela respeita direitos autorais.
Apesar dessa política de colaboração, o site não escapou de polêmicas e chegou a encerrar suas operações.
Fundado há cinco anos por Edward Guo, então um estudante de conservatório de 19 anos, o International Music Score Library Project deixou de operar em 2007 (e só voltou no ano seguinte), depois que a Universal Edition, uma editora europeia de música, entrou na Justiça acusando-o de violar direitos autorais.
Para as editoras, o projeto é considerado uma ameaça, já que parte dos ganhos delas vem do aluguel e da venda de partituras.
Essa é uma das dificuldades do site: adaptar-se a diferentes legislações. No Canadá, por exemplo, onde seus servidores estão localizados, a proteção vale por 50 anos após a morte do autor. Nos EUA, geralmente ela vale por 70 anos.
Por isso, alguns compositores mortos mais recentemente estão ausentes do site ou têm apenas parte do seu trabalho publicada.
Mas isso não é muito mais uma questão cultural do que de gênero?
8 de Março - ENTREVISTA ROSE MARIE MURARO
DE SÃO PAULO Rose Marie Muraro não para. Aos 80 anos, quase cega e numa cadeira de rodas, ela diz que está muito bem. "Tenho feito de tudo. Escrevo enlouquecidamente."
Seu 36º livro vai se chamar "Um Mundo ao Alcance de Todos". Patrona do feminismo brasileiro, cinco filhos, 12 netos, ela estudou física e economia, mas se notabilizou por levantar a questão feminina e ser uma voz impertinente contra a ditadura. Na sua autodefinição, ela é "porra-louca e pré-arcaica".
Defende hoje o microcrédito e as feiras de trocas.
Nesta entrevista, concedida ontem por telefone a propósito do 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, ela fala de seus projetos atuais e dos rumos do movimento feminista, que hoje acredita ser mais profundo.
Mas que ainda precisa conseguir "o mais importante": igualdade de salários entre homens e mulheres.
Folha - Qual o significado do 8 de Março nos dias de hoje?
Rose Marie Muraro - Agora temos uma mulher presidente da República. Houve um grande avanço na participação da mulher nas estruturas.
Haverá muitas mudanças porque há muitas diferenças entre o homem e a mulher. As Nações Unidas fizeram uma pesquisa em 121 países e descobriram que com mulheres no poder cai o nível de corrupção. O homem pensa primeiro nele e depois nos outros, daí sai a corrupção. A mulher pensa primeiro nos outros depois nela. Como a sra. define o feminismo hoje? O movimento, que teve importância nos anos 1960, 1970, hoje parece mais enfraquecido.
Ao contrário. Ele está na Presidência da República. Isto me irrita: achar que o feminino é mais fraco porque é menos barulhento.
Ao contrário, está muitíssimo mais forte. Saiu a Lei Maria da Penha, que diminuiu a violência doméstica, que é a primeira violência que a criança vê. É a raiz de todas as outras violências, das guerras etc.Quais seriam as bandeiras do feminismo hoje?
Mais importante de tudo -que acho que não vai ser conseguido nem nos Estados Unidos por enquanto- é: trabalho igual, salário igual. O resto foi conseguido. Nos EUA, a mulher ganha 80% do que ganha o homem; no Brasil, 70%.
Espero que o feminismo amadureça dentro da sociedade e que haja uma sociedade do homem e da mulher.Quais são os movimentos de luta da mulher mais importantes no Brasil?
Sou muito adepta da Secretaria de Política para as Mulheres. Hoje em dia, em todas as comunidades populares as mulheres tendem a fazer microcrédito, feiras de troca e diminuírem a pobreza extrema.
É um movimento geral, mas silencioso -97% dos movimentos de transformação da pobreza estão na mão da mulher: o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida. Hoje é cem vezes melhor [em relação aos anos 1960, 1970].
Não faça uma identidade entre grandeza do movimento e barulho. Há muitos movimentos silenciosos, como esses da economia solidária, por exemplo, que são levados por mulheres. É um movimento mais silencioso, mas mais profundo.
Está dando "empoderamento" às mulheres e fortíssimo, até nas áreas rurais.Qual o seu projeto agora?
Meu projeto é "empoderar" as mulheres de baixa renda, que vão mudar a estrutura da corrupção no Brasil, o que vai fazer os fluxos de dinheiro se voltarem para onde devem. Como na Escandinávia, onde se voltam ao povo, para pão, escola, trabalho.
A corrupção é muito mais séria do que você pensa. Porque o dinheiro em vez de ir para quem precisa, para quem tem fome, vai para quem tem mais dinheiro, para as Ilhas Cayman.
Exemplo: o Lula deu um dinheirinho pequeno, uma esmolinha para os pobres, e fez do Brasil a sétima economia do mundo. E deu um dinheirão para os bancos. O que as mulheres devem fazer para atingir esse objetivo, o de "empoderamento"?
Microcrédito, feiras de troca e bancos comunitários. Elas se apossarão do dinheiro. Porque nos espaços do Brasil onde já existem essas coisas a mulher é quem faz, negocia. Os homens brigam. Há muita diferença entre homens e mulheres. A mulher é soft; o homem é hard. Mas isso não é muito mais uma questão cultural do que de gênero?
Não. É uma questão biológica. A mulher é obrigada a proteger a vida. O homem é obrigado a buscar comida. Daí as guerras, a corrupção.
Eu acho que tem a ver com os neurônios masculinos. No cérebro, a maior diferença entre o masculino e o feminino é a área da agressividade.
A gente pode mudar o cérebro com o correr das gerações. Está mudando muito. Só o fato de a população se organizar. Olha a organização dos pobres nos países islâmicos. Isso era impossível há cinco anos. Graças ao Facebook, os pobres estão se reunindo, tendo uma voz, contra os corruptos.
Há grande desigualdade porque há grande desigualdade de dinheiro. A gente está criando um outro tipo de dinheiro, o dinheiro solidário, que não gera juro. O dinheiro que não gera juro gera igualdade.
É um projeto de reformulação das estruturas da sociedade. Já existem 400 bancos comunitários. Vamos apresentar um projeto à Dilma que é um passo além do Bolsa Família.
Estou muito animada. Quando eu comecei me chamavam de prostituta, mal-amada, machona, solteirona. Hoje, os tapetes vermelhos estão abertos para mim. Já não sou vista como uma bruxa contra os homens.Hoje quem é a vanguarda desse movimento?
Não existe uma vanguarda intelectual. Isso é uma maneira machista e centralista de pensar. Existem movimentos no mundo inteiro, já entrou na sociedade.
Vanguardas? Não sei. Pode ser que as presidentes das repúblicas sejam. Eu não acredito no sistema de liderança como é no sistema masculino, mas num sistema de comunidades, feminino. E a questão do aborto no Brasil? A presidente disse que não vai mexer nisso.
São 15 países que não têm o avanço. Nos outros todos o aborto é legalizado. Mexer com a Igreja aqui no Brasil é uma barbaridade.
Ruth Cardoso levou [a questão] e a Igreja ficou danada. Jandira Feghali perdeu a eleição no Rio porque era a favor da legalização do aborto. A Igreja tem muito poder no Brasil. As mulheres pobres é que sofrem. Será uma surpresa uma modificação disso no curto prazo.
segunda-feira, 7 de março de 2011
"País não está pronto para erradicar miséria", diz especialista
| Marcio Lima/Folhapress |
DE SÃO PAULO O Brasil não está pronto para erradicar a miséria nem para absorver a chamada nova classe média, avalia Renato Dagnino, professor titular no Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp.
De acordo com ele, falta ao país o conhecimento tecnológico e científico adequado para a inclusão social ocorrer de forma sustentável social e ambientalmente. Por outro lado, Dagnino vê na erradicação da miséria uma "oportunidade de ouro" para repensar o tipo de conhecimento produzido no país.
A seguir, trechos da entrevista concedida à Folha.
Folha - As políticas sociais do governo se articulam com as de ciência e tecnologia?
Renato Dagnino - No mundo inteiro, a pesquisa feita na universidade é direcionada para o interesse das empresas. Muito pouco atende aos interesses do Estado.
Se olharmos para as demandas que têm a ver com o projeto de erradicação da miséria, veremos uma carência enorme de conhecimento técnico-científico.
Entre outras razões, porque as necessidades básicas das populações nos países desenvolvidos foram atendidas há muito tempo.
Hoje, a expansão da fronteira do conhecimento está conectada ao interesse das pessoas de mais alta renda.
Esse conhecimento de que necessitamos não existe, temos que produzir, com soluções tecnicamente perfeitas, ou as melhores possíveis, além de social e ambientalmente adequadas. Como seria possível fazer a integração entre as políticas?
É possível utilizar o poder de compra do Estado de uma forma mais coerente com a ideia de inclusão social.
A latinha de alumínio é um exemplo. Por que não podemos transformar a latinha em esquadria de alumínio com uma tecnologia social, completando a cadeia da janela de alumínio com a economia solidária?
O Minha Casa, Minha Vida poderia ser usado de outra forma. Quase todos os recursos vão para empreiteiras, quando uma parte grande poderia ir para mutirões.Há alguma diferença entre os governos FHC, Lula e Dilma no que diz respeito às políticas de ciência e tecnologia?
Não. Na verdade, o que os dados disponíveis mostram é que vem diminuindo o gasto percentual das empresas em pesquisa e desenvolvimento.
Isso é totalmente esperado. É uma questão estrutural. Existem três bons negócios com tecnologia: roubar, copiar ou comprar. Desenvolver, só em último caso. E qual é a solução?
No caso brasileiro, não tem solução. Costuma-se dizer que o empresário brasileiro é "atrasado". Ora, se tem empresário competente no mundo, é o brasileiro. Basta ver o dinheiro que ganha.
Agora, o processo de erradicação da miséria é uma oportunidade de ouro. Esse processo desvela enorme demanda reprimida por conhecimento. E não só conhecimento desincorporado, mas incorporado em bens, serviços, capacidade produtiva.
Para fazer um país onde caiba todo o povo brasileiro, é preciso construir outro país do tamanho do que já existe.
Não dá para fazer sem planejar. Está na hora de pensar esse processo de construção do Brasil que a gente quer, e isso não está sendo feito. Quanto dessa situação se deve ao atual momento social e econômico do país?
Essa situação existe há muito tempo, mas, na medida em que há um dado novo, e esse dado exige expansão da capacidade produtiva, é hora de inovar com qualidade, e não fazer simples aumento quantitativo. Quando se dobra a capacidade produtiva, o impacto indesejável pode até quintuplicar. O país está pronto para erradicar a miséria?
Do ponto de vista cognitivo, do ponto de vista de conhecimento científico-tecnológico, o país não está pronto de jeito nenhum. E para absorver a chamada nova classe média?
Também não. Esse processo terá consequências ambientais e sociais. Acaba desfazendo de um lado o que faz do outro. Os programas compensatórios, como o Bolsa Família, são um caso típico.
Sem gerar oportunidade de trabalho e renda para essas pessoas, não se está fazendo muita coisa.FOLHA.com
Leia mais trechos em
folha.com.br/po884966
Acervo de Gilberto Freyre é digitalizado
ENVIADO ESPECIAL A RECIFE O escritor e antropólogo Gilberto Freyre (1900-1987) era um homem de pouco traquejo com a tecnologia. Só escrevia textos à mão, nunca aprendeu a datilografar e nem sequer manejava um telefone. Pelo que se tem registro, jamais usou uma câmera fotográfica.
Isso não o impediu de produzir uma obra extensa, datilografada por terceiros, e de reunir uma farta coleção de fotografias, composta por mais de 17 mil imagens.
São registros de viagens ao exterior, de momentos com amigos, familiares e, sobretudo, de situações sociais usadas como base em suas pesquisas e textos.
Elas foram feitas por pessoas ligadas ao escritor, como o irmão, Ulysses, e o filho, Fernando, doadas a Freyre ao longo dos anos.
A partir de maio, essas imagens estarão disponíveis na internet, no site da Fundação Gilberto Freyre (www. fgf.org.br). O projeto de catalogação e digitalização começou em 2009. Custou R$ 250 mil, bancado pelo Ministério da Cultura.
No escritório onde Freyre trabalhava, até hoje preservado no museu da fundação, em Recife, pilhas de papéis com manuscritos, fotografias e recortes de jornal ficavam espalhados pelo chão.
Cada montanha dizia respeito a um projeto ao qual o escritor se dedicou. "Ele não seguia regras; não costumava usar as mesmas fontes dos acadêmicos. Eram critérios muito pessoais", diz Sônia Freyre Pimentel, filha do antropólogo.
Além das imagens utilizadas na pesquisa do livro "Casa Grande & Senzala", o acervo tem registros da expedição que Freyre fez, na década de 1950, às colônias portuguesas da África e Ásia. As fotos, tiradas sob sua orientação, seriam usadas posteriormente no livro "Aventura e Rotina", de 1953.
A maioria das imagens é inédita; algumas não foram identificadas por falta de referência. A ideia, segundo Jamille Barbosa, coordenadora do projeto, é que o trabalho seja colaborativo: "Vamos disponibilizar tudo, para que os pesquisadores ajudem no processo de descrição".
Maestro interrompe concerto e faz denúncia de censura no Municipal
Ghelfi disse que os músicos da orquestra estão proibidos de falar com a imprensa: "Eles estão com contratos renovados a cada três meses e são ameaçados: se abrir a boca, não renova o contrato".
O discurso foi recebido por aplausos do público.
"Não estou contando isso para defender o maestro Alex Klein", disse, citando o ex-diretor artístico da orquestra. Klein chamou Ghelfi em outubro para a série de concertos Municipops, que incluiu o evento de quinta-feira.
"Hoje termino minha relação com o Teatro Municipal. Agora ela se dá em outras esferas por intermédio do meu advogado, que, aliás, está aqui", finalizou Ghelfi.
Em fevereiro, Klein deixou o cargo alegando não ter sido consultado sobre alterações na programação da sala. Foi substituído por Abel Rocha.
Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura não foi encontrada ontem para comentar o caso.
domingo, 6 de março de 2011
PERNAMBUCO - "Pagamos até passagem aérea para candidato a vaga"
"Não há mais cordialidade entre os departamentos de recursos humanos. Estamos vivendo uma guerra por profissionais. Pagamos até passagem aérea para trazer um candidato a vaga para uma entrevista", diz Clóvis Gomes, 44, gerente de RH da Impsa.
A empresa busca 178 funcionários para a fábrica de turbinas hidrelétricas, uma nova unidade que será construída em Suape para montar as turbinas da usina Belo Monte, no rio Xingu (PA).
A Impsa não é a única empresa com problemas. O EAS (Estaleiro Atlântico Sul) precisa contratar 1.200 pessoas até junho.
Essa oferta abundante de vagas reduziu o desemprego na RMR (Região Metropolitana do Recife) nos últimos anos.
O nível de desemprego medido pelo IBGE caiu de 14,3% em dezembro de 2006 para 8,1% em dezembro do ano passado.
O ritmo da geração de novas vagas acelerou-se em 2010, ano em que só a construção civil cresceu 25%.CARTEIRA ASSINADA
Apenas em 2010, o Estado de Pernambuco criou 113 mil empregos com carteira assinada, segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
Entre esses empregos está o de Camila Ribeiro, 31. Formada em filosofia pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), ela é uma das três mulheres que ingressaram na área operacional do Terminal de Contêineres em Suape. Ela pilota um equipamento de US$ 1,6 milhão. (AB)
PERNAMBUCO - O EAS, associação entre a Queiroz Galvão, a Camargo Corrêa, a PJMR e a sul-coreana Samsung, conseguiu uma carteira que vale hoje US$ 8,1 bilhões.
Setor privado forma polos industriais Depois dos projetos estruturantes, companhias começam a negociar a vinda dos fornecedores para SuapeEmpresas que atendem estaleiro avaliam se vão investir e companhia de aerogeradores pode atrair quatro empresas DO ENVIADO ESPECIAL A SUAPE (PE)A expansão industrial de Pernambuco deve entrar agora na segunda fase: a atração de fornecedores dos projetos-âncoras.
Um dos maiores empreendimentos no Estado, o EAS (Estaleiro Atlântico Sul) negocia a instalação, em Suape, de fornecedores de equipamentos para a montagem de navios-plataforma e navios-sonda usados na perfuração de campos de petróleo.
"Alguns grandes fornecedores internacionais já vieram aqui para observar se o polo naval oferece escala de produção. Acho que, em breve, vamos ver alguns desses fornecedores chegando", diz José Roberto de Moraes, diretor de operações da empresa.
O EAS, associação entre a Queiroz Galvão, a Camargo Corrêa, a PJMR e a sul-coreana Samsung, conseguiu uma carteira que vale hoje US$ 8,1 bilhões.
São 22 navios-petroleiros, sete navios-sonda e o casco da P-55 (plataforma que irá operar no campo de Roncador, na bacia de Campos, no Rio), um pacote todo atrelado aos pedidos de uma só empresa, a Petrobras.
Para o EAS, atrair fornecedores para ampliar o polo naval de Suape pode ajudar o próprio estaleiro a melhorar a performance de construção das embarcações. O plano do estaleiro é reduzir o tempo em que um casco de navio permanece no dique seco.
Hoje, eles demoram até seis meses na instalação. O plano é reduzir o tempo para dois meses. Para isso, o estaleiro terá de montar navios a partir de megablocos. O primeiro petroleiro, o João Cândido (em fase de acabamento), foi montado a partir da junção de 240 blocos.
O Zumbi dos Palmares, atualmente em montagem, será construído a partir de 150 blocos. O terceiro, ainda não batizado, será feito com 30 blocos gigantes, cada um montado fora do dique.
A meta do estaleiro é montar um petroleiro unindo apenas 22 partes. DE VENTO EM POPA
Se as perspectivas para atração de fornecedores do estaleiro são boas, as chances de a Impsa (Indústrias Metalúrgicas Pescarmona) criar o primeiro grande cluster em Suape são maiores ainda. A companhia argentina entrou no negócio de energia eólica há cinco anos. A atividade já responde por 60% das receitas.
O sucesso nos leilões de energia eólica no Brasil garantiu à companhia uma carteira de pedidos de R$ 3 bilhões em aerogeradores.
"A empresa está instalada em Suape há dois anos e já negocia a vinda de pelo menos dois produtores de torres para os aerogeradores e duas empresas de pás (as hélices do gerador)", diz o gerente comercial da empresa, Paulo Ferreira.
Distante cerca de três quilômetros da Impsa, a Petrobras monta uma mega refinaria que terá capacidade de processar 250 mil barris de petróleo por dia. Ao lado da refinaria também é construída uma petroquímica.
A estatal não quis falar sobre o projeto, mas a expectativa em Pernambuco é que a produção de matérias-primas petroquímicas viabilize um polo têxtil na região, com indústrias para fabricação da fibra, do tecido e, quem sabe, confecções.
Outra promessa é a formação de um novo polo automotivo no Nordeste, com a instalação da Fiat até 2014, segundo previsão da própria montadora.
A unidade terá capacidade para 200 mil veículos e a previsão é a de que, por isso, constitua um novo parque de autopeças.(Agnaldo Brito)
PERNAMBUCO (NORDESTE) - Investimento público cresce 2,5 vezes em 4 anos
A expansão do gasto público, com forte apoio do governo federal, é parte da explicação do impressionante crescimento pernambucano.
No quadriênio de 2003 a 2006, o governo local investiu em média R$ 680 milhões em obras de infraestrutura. No período de 2007 a 2010, o governo estadual conseguiu elevar esses aportes à média de R$ 1,7 bilhão de investimentos ao ano.
Só no ano passado, o Estado autorizou gastos de R$ 2,7 bilhões.
Pernambuco tem recorrido a financiamentos para sustentar essa expansão, mas afirma que isso não tem elevado o nível de endividamento. A explicação está na elevação das receitas correntes.
"A redução de custeio e o aumento da arrecadação de ICMS fizeram o endividamento do Estado cair de 82% para 63% da receita corrente líquida", diz Geraldo Júlio, secretário de Desenvolvimento de Pernambuco.
Hoje, a receita total de Pernambuco é de R$ 14 bilhões, impulsionada pela arrecadação de ICMS que cresceu 18,2% em 2010. EFEITO POLÍTICO
Essa gestão tem dado resultado eleitorais. A força do governador Eduardo Campos (PSB) pôde ser medida na eleição do ano passado. Campos foi reeleito em primeiro turno com uma votação inédita no país: 82,8% dos votos válidos, um recorde. (AB)
PERNAMBUCO - O complexo industrial-portuário, um modelo inédito no Brasil, está fazendo surgir um novo Estado industrial no país.
| Daniel Marenco/Folhapress |
ENVIADO ESPECIAL A SUAPE (PE)O helicóptero decola do heliponto do Centro Administrativo de Suape. A 200 metros do chão, é possível ter a dimensão da revolução econômica que a injeção de R$ 46 bilhões em investimentos públicos e privados previstos até 2014 está promovendo em Pernambuco, a nova locomotiva do Nordeste.
Não é o único canto do Estado que avança ligeiro e que tem mudado não só a vida dos 8,7 milhões de pernambucanos, mas sobretudo permitido a volta dos retirantes que um dia caíram no mundo atrás de uma vida melhor.
No interior, duas obras gigantes (a transposição do rio São Francisco e a construção da Ferrovia Transnordestina) ajudam a desenhar uma nova paisagem na vida do morador do agreste e do sertão. LITORAL
No litoral, onde pode-se observar a síntese da nova dinâmica econômica, o complexo industrial-portuário de Suape, erguido a 40 quilômetros ao sul do Recife, brota a velocidade impressionante.
"Cento e vinte empresas já estão instaladas, outras 30 estão em construção e mais 20 irão surgir até 2014", enumera Frederico Amâncio, vice-presidente de Suape. Do alto é possível avistar obras em todos os cantos dos 13,5 mil hectares do complexo.
Justo ali, onde há 380 anos invasores holandeses -que acharam de tomar uma fatia do Brasil colônia- indicaram como ponto mais propício à criação de um porto.
E foi nessa região, após romperem pequena porção da parede dos arrecifes que protege o litoral do Atlântico, que os holandeses criaram uma passagem para que os barcos de açúcar alcançassem os navios em alto-mar.
A visão dos invasores ganhou forma quase quatro séculos depois. Investimentos de mais de US$ 3 bilhões nos últimos dez anos criaram a infraestrutura básica para o atual ciclo de expansão do porto de Suape, e converteram a região no principal polo de atração de negócios do Nordeste brasileiro. A APOSTA PRIVADA
Agora, o PIB pernambucano demonstra vigor e o combustível é Suape. Em 2010, o PIB estadual foi de R$ 87 bilhões -expansão de 15,78% num só ano. Os velhos engenhos de cana e as usinas de açúcar e álcool pouco a pouco deixam de ser predominantes na matriz econômica de Pernambuco.
A aposta do poder público em Suape ao longo de 40 anos -desde o plano original de 1960- começou a seduzir o capital privado. O complexo industrial-portuário, um modelo inédito no Brasil, está fazendo surgir um novo Estado industrial no país.
"Não tínhamos indústria de petróleo e gás, nem indústria naval ou automobilística. Agora há uma nova perspectiva para o Estado", diz Geraldo Júlio, presidente de Suape e secretário de Desenvolvimento Econômico. ACIMA DO NORDESTE
A forte expansão econômica elevou a renda per capita do Estado a quase R$ 10 mil, acima da média do Nordeste, de R$ 7.488, mas ainda inferior à renda nacional, de R$ 15.990.
A criminalidade caiu 25% em quatro anos, mas ainda é de 40 homicídios por 100 mil habitantes, quatro vezes mais que no Estado de São Paulo, e superior à média nacional, de 24,5 por 100 mil.
PERNAMBUCO - O complexo industrial-portuário, um modelo inédito no Brasil, está fazendo surgir um novo Estado industrial no país.
| Daniel Marenco/Folhapress |
ENVIADO ESPECIAL A SUAPE (PE)O helicóptero decola do heliponto do Centro Administrativo de Suape. A 200 metros do chão, é possível ter a dimensão da revolução econômica que a injeção de R$ 46 bilhões em investimentos públicos e privados previstos até 2014 está promovendo em Pernambuco, a nova locomotiva do Nordeste.
Não é o único canto do Estado que avança ligeiro e que tem mudado não só a vida dos 8,7 milhões de pernambucanos, mas sobretudo permitido a volta dos retirantes que um dia caíram no mundo atrás de uma vida melhor.
No interior, duas obras gigantes (a transposição do rio São Francisco e a construção da Ferrovia Transnordestina) ajudam a desenhar uma nova paisagem na vida do morador do agreste e do sertão. LITORAL
No litoral, onde pode-se observar a síntese da nova dinâmica econômica, o complexo industrial-portuário de Suape, erguido a 40 quilômetros ao sul do Recife, brota a velocidade impressionante.
"Cento e vinte empresas já estão instaladas, outras 30 estão em construção e mais 20 irão surgir até 2014", enumera Frederico Amâncio, vice-presidente de Suape. Do alto é possível avistar obras em todos os cantos dos 13,5 mil hectares do complexo.
Justo ali, onde há 380 anos invasores holandeses -que acharam de tomar uma fatia do Brasil colônia- indicaram como ponto mais propício à criação de um porto.
E foi nessa região, após romperem pequena porção da parede dos arrecifes que protege o litoral do Atlântico, que os holandeses criaram uma passagem para que os barcos de açúcar alcançassem os navios em alto-mar.
A visão dos invasores ganhou forma quase quatro séculos depois. Investimentos de mais de US$ 3 bilhões nos últimos dez anos criaram a infraestrutura básica para o atual ciclo de expansão do porto de Suape, e converteram a região no principal polo de atração de negócios do Nordeste brasileiro. A APOSTA PRIVADA
Agora, o PIB pernambucano demonstra vigor e o combustível é Suape. Em 2010, o PIB estadual foi de R$ 87 bilhões -expansão de 15,78% num só ano. Os velhos engenhos de cana e as usinas de açúcar e álcool pouco a pouco deixam de ser predominantes na matriz econômica de Pernambuco.
A aposta do poder público em Suape ao longo de 40 anos -desde o plano original de 1960- começou a seduzir o capital privado. O complexo industrial-portuário, um modelo inédito no Brasil, está fazendo surgir um novo Estado industrial no país.
"Não tínhamos indústria de petróleo e gás, nem indústria naval ou automobilística. Agora há uma nova perspectiva para o Estado", diz Geraldo Júlio, presidente de Suape e secretário de Desenvolvimento Econômico. ACIMA DO NORDESTE
A forte expansão econômica elevou a renda per capita do Estado a quase R$ 10 mil, acima da média do Nordeste, de R$ 7.488, mas ainda inferior à renda nacional, de R$ 15.990.
A criminalidade caiu 25% em quatro anos, mas ainda é de 40 homicídios por 100 mil habitantes, quatro vezes mais que no Estado de São Paulo, e superior à média nacional, de 24,5 por 100 mil.
Sociólogo é investigado por violação de dados sigilosos
MARIO CESAR CARVALHO
DE SÃO PAULO
Kahn chefiou a CAP (Coordenadoria de Análise e Planejamento), centro de estatísticas criminais da secretaria, até a última terça-feira, quando foi demitido pelo governador Geraldo Alckmin.
Alckmin disse que a atividade empresarial dele era incompatível com a função que exercia no governo.
A demissão foi anunciada após a Folha revelar que Kahn tem uma empresa, a Angra Consultoria, que inclui em seus serviços dados sigilosos sobre violência. Funcionários da Secretaria da Segurança Pública também prestavam serviços para a Angra.
Documentos obtidos pela Folha revelaram que o funcionário da Secretaria da Segurança Pública usava dados que o governo paulista se recusa a divulgar, como os locais com concentração de furto e roubo de carros, para clientes privados.
Kahn disse à Folha na última segunda-feira que jamais violou o sigilo de dados criminais. Segundo ele, as empresas não eram seus clientes, mas patrocinadores de pesquisas sobre violência.
sábado, 5 de março de 2011
Suspensão de "Aline" reforça caretice e condena a ousadia
ESPECIAL PARA A FOLHA A suspensão da série "Aline", de forma abrupta, no meio da segunda temporada, nesta semana, diz muito sobre o momento de caretice que impera na Globo e, em última instância, na televisão aberta brasileira.
Não que fosse um programa revolucionário, mas era um raro ponto fora da curva em uma grade previsível e conservadora.
Fato pouco comum, a série foi criada a partir de matéria-prima brasileira -a tirinha debochada assinada por Adão Iturrusgarai e publicada na Folha - e não por "inspiração" ou imitação de seriados americanos.
A história da menina com dois namorados, vários amantes e hábitos nada ortodoxos sofreu forte desidratação ao chegar à televisão, mas mesmo assim conseguiu transmitir um raro frescor.
Um dos achados foi a escolha da solar Maria Flor para ser a protagonista. Mais importante ainda foi o tom encontrado para narrar a saga.
Na TV, o trio formado por Aline, Otto e Pedro ganhou um registro mais infantil e bem-humorado, mas não menos ousado e fora dos padrões do que o visto nas tirinhas. Foi a forma encontrada, creio, para tornar o programa aceitável, ainda que no fim de noite, a um público potencialmente mais conservador e menos informado.
Exibida entre outubro e novembro de 2009, "Aline" mereceu uma segunda temporada no início de 2011. Sinal de que foi aprovada.
Oito episódios foram gravados de uma vez, ao longo de um mês, e começaram a ser exibidos em fevereiro, com previsão de encerramento no final de março.
Dias depois da exibição do quarto episódio, o jornalista Flavio Ricco, do UOL, revelou que a série seria suspensa, deixando na gaveta três programas prontos.
Foi interessante observar como essa notícia repercutiu dentro das Organizações Globo. Primeiro, na terça-feira, 1º de março, o site do jornal "Extra" informou, em tom de deboche: "Série moderninha é encurtada por não ter audiência satisfatória".
No dia seguinte, no jornal "O Globo", a colunista Patrícia Kogut escreveu: "A verdade extraoficial é que o namoro de três protagonistas de "Aline" dividia opiniões nos bastidores desde a primeira temporada. Uma corrente mais conservadora não gostava mesmo do programa".
Na quinta-feira, Kogut voltou ao assunto para informar que "a Globo, através de sua assessoria, diz que houve problemas de audiência". Na Folha, ontem, Keila Jimenez informou que a direção da emissora não gostou de ver uma sugestão de "suingue" entre os casais formados pelos pais separados de Aline.
Por falta de audiência ou excesso de moralismo, ou ambos, o fato é que a suspensão de "Aline" sinaliza uma condenação à ousadia e premia os que apostam em mais do mesmo na TV.